[DICIONÁRIO AMOROSO] Árvore - Teixeira, António José

By Soul dos Livros - 19:00

Boa noite, leitores. Segundo dia de "Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa"! Para saber mais sobre o projeto, clique aqui!


Palavra de hoje: ÁRVORE, escrito por José António Teixeira.





      "Porque raiz,
      ventre, coração, artérias,
      sopro, tronco e alma,
      abrigo, agitação, nobreza.
      Tudo e nada, começo frágil, firme resistência, fogo ardente,
      começo e recomeço,
      pulmão de um sorriso puro,
      fonte do tempo, teimosa preguiça.
      Ontologia,
      eu em melhor,
      folha e ramos de aconchego.
      SEIVA.
      Ou Árvores
     que ganho cada vez mais tempo absorto nas árvores. Nas copas frondosas, nos troncos sofridos, em braços altivos, firmes, nas mãos que seguram perfumes e paladares. Gosto de lhes adivinhar as raízes, de as ver espreitar à superfície. Gosto da sombra, da luz
      difusa, filtrada.
     Ganho cada vez mais tempo a respirar as árvores. Frescura debaixo de céus abrasadores. Ano após ano mais quentes. Aprendi a admirar as árvores que me acolhem e abrigam. Gosto de as ver crescer - embora pareça que elas têm mais tempo para nos observar.
     Gosto do viço primaveril e do vigor do verão. Impressiona-me o bailado das folhas no outono e a força resistente dos troncos no inverno.
      Inclino-me cada vez mais sob as árvores. E não é apenas por as ver dizimadas pelo fogo. Sinto-lhes a falta na cidade, reduzidas, quando as há, a marcos divisórios ou à decoração de alguns alcatroados. Há anos, numa terra distante, agradou-me a soberania das árvores perante a construção civil. Árvores com direitos adquiridos, obrigando o cimento armado a passar ao lado, a contorná-las, a vergar-se à sua história de bem-estar. Por cá, as árvores não têm direitos. Tardamos em perceber como são insubstituíveis.
      Porque é preciso amar as árvores, proponho que se avaliem os autarcas em função do que fizeram ou se propõem fazer pelas árvores. Para que Gonçalo Ribeiro Telles não volte a dizer que a beleza deixou de interessar à urbe.
      As árvores atrapalham os bandeirantes do "progresso": ou se cortam ou ardem. Tragédia da terra queimada quando havia tanto a aprender com as árvores. Tanto a respirar, tanto a viver melhor. "



[...]

Bom, o que dizer desse texto... Na primeira vez que o li, não tinha gostado tanto. Mas ao ler com calma nessa segunda vez enquanto digitava, percebi como ele traz a árvore como fruto de conhecimento e cultura. Eu realmente gostei de como ele traz uma crítica grande sobre o desmatamento, como ele usa a árvore como metáfora de bondade, beleza, necessidades.

Diferente da primeira palavra, esta me tocou  mais fundo na minha mente, que no meu coração. Agora é aquela hora em que eu paro para olhar um pouco pela janela e perceber como as árvores são pontinhos verdes espaçados nessa Pauliceia. Faltam árvores. É verdade.




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